OEIRAS – A Primeira Capital

Oeiras é um município da MACRORREGIÃO 3 – SEMI-ÁRIDO no Território de Desenvolvimento 7 – Vale do Canindé, no estado do Piauí. Localiza-se a uma “latitude 07°01’30” sul e a uma “longitude 42°07’51” oeste, sua população, segundo o censo do IBGE de 2010 era de 35.646.

História

Desenho da Freguesia do MochaDiversas expedições tentaram a exploração das terras do Estado do Piauí. Dentre as principais estão a de Domingos Afonso Mafrense, em 1674, que penetrou toda a região centro-sul, resultando no domínio de vasto sertão até o Rio Parnaíba. Outra, vinda de Pernambuco, por influência da expedição de Mafrense teria invadido os sertões de Cabrobó, avançando sempre para o nordeste.

O surgimento da primeira capital do Piauí tem duas versões: a primeira é a de que o berço do povoado foi um arraial de índios domésticos fundado por Julião Afonso Serra por volta de 1676 para proteger as suas fazendas e lavouras dos ataques de índios bárbaros; a outra, considerada oficial, é a instalação da Fazenda Cabrobó de Domingos Afonso Mafrense, que mais tarde recebeu o nome de Mocha, devido a presença de um riacho com o mesmo nome, e no lugar foi construída a capela de Nossa Senhora da Vitória. O povoado foi elevado à freguesia e desmembrado de Cabrobó por ordem do Bispo Diocesano de Pernambuco, Dom Francisco de Lima.

Segundo Gervásio Santos, as primeiras descrições sobre a Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, foram feitas pelo Padre Miguel de Carvalho, sacerdote português. Foi um relatório escrito ao Bispo de Pernambuco, Dom Francisco, dando conhecimento dessa freguesia. Durante esse período o Piauí era assistido religiosamente pela Freguesia da Nossa Senhora da Conceição do Cabrobó, diocese pernambucana onde o Padre Miguel era membro.

O Pe. Miguel, dedicado membro do clero, visitava as povoações católicas pertencentes àquela freguesia, desde Pernambuco, Rio São Francisco até o Rio Tocantins. Observando o crescimento das fazendas de gado na região piauiense, em 1694, aonde as distâncias iam crescendo junto com as criações dos currais. O padre percorreu todas as fazendas propondo aos seus moradores a transformação dessa comunidade em uma nova paróquia.

Pôr-do-sol no açude da Fazenda TranqueiraTais visitas resultou em uma reunião na Fazenda Tranqueira, propriedade de Antônio Soares Touguia, para que se discutisse o assunto, onde a maior parte dos fazendeiros e agregados da região decidiram pela aprovação ao postulado do vigário lusitano.

Nesta reunião foi definido o local, Brejo do Mocha, sertão do Piauí para a construção da igreja.

O Pe. Miguel requer então da diocese, provando a necessidade da expansão dos interesses da igreja, o desdobramento da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição em outras duas freguesias, a Freguesia de São Francisco, na Bahia, e a de Nossa Senhora da Vitória, no sul do Piauí.

Recebendo a autorização o padre retorna ao Piauí e instala, em 22 de março de 1697, a Nossa Senhora da Vitória, em torno de uma capela levantada pelos moradores e que leva o mesmo nome.

Origem do Nome – A Viagem Para o Brejo do Mocha

Conforme contextualiza Adrião Neto, 2004, que em novembro de 1696 aconteceu um fato decisivo para o início da história de Oeiras:

“Era noite de quinta-feira, enquanto milhares de estrelas enfeitavam o céu, a lua cheia, exibindo a figura de São Jorge, montado em seu cavalo branco, flutuava no espaço sideral a iluminar a densa floresta daquele sertão bruto, povoado de índios bravos, animais ferozes, fantasmas, duendes e almas penadas...

O vento frio, do início da madrugada, soprava forte a revirar a folhagem do arvoredo.

O silêncio da noite entrecortado pelo pio de uma coruja solitária e pelo canto agoureiro de um rasga-mortalha, que, de quando em quando, sobrevoava aquela região, evidenciava o som melódico de uma pequena cachoeira situada no desnível de uma formação rochosa erguida no leito do riacho ali próximo, onde ao entardecer os viajantes tomaram banho e lavaram os seus animais.

Dominado pelo cansaço e pelo sono, o Padre Tomé, deitado numa rede branca de algodão, surrada e um tanto encardida, armada debaixo de uma árvore copuda, roncava alto a incomodar os seus colegas de jornada, especialmente o Padre Miguel de Carvalho, que, juntamente com o seu irmão, Padre Inocêncio de Carvalho e Almeida, além de não suportarem mais as picadas dos pernilongos, estavam atordoados com a incessante cantiga de grilos...

...Terminado o desjejum os viajantes montando em seus animais seguiram viagem.

O guia partiu na frente, seguido de perto pela escolta de arcabuzeiros, pelos dois Padres, pelo acólito e, finalmente pelo tropeiro e seus ajudantes.

Seguindo a trilha do gado, iam tranqüilos, quando de repente foram surpreendidos.

Uma horda de “Rodeleiros” armados com arcos e flechas, lanças, cachaporras e com um arcabuz, devidamente protegidos por escudos confeccionados com enormes rodelas de madeira, cercaram a comitiva, apontando-lhes as armas.

Diante do cerco dos nativos que agiam como um esquadrão de justiceiros formado com o objetivo principal de saquear e eliminar os conquistadores, a escolta de arcabuzeiros tentou reagir, mas, de pronto foi advertida por um deles, de espingarda em punho, que em voz grave lhes bradou:

        Quem tentar disparar a sua arma será o primeiro a ser eliminado.

Um outro gritou:

        Rendam-se e entreguem as armas.

A fama dos Rodeleiros ultrapassava as fronteiras do Sertão de Dentro (também denominado de Sertão de Rodelas), sendo conhecida inclusive na zona canavieira e de criação de gado da Bahia e de Pernambuco. Sabia-se que cada um dos sete Distritos componentes do seu Reino mantinha um pequeno exército de guerreiros e dentre estes se selecionava os melhores para compor um grupo de extermínio, o qual agia como se tivesse praticando apenas um saque. No entanto, depois de se apropriar dos animais, das armas e dos pertences, eliminava as suas vítimas da maneira mais cruel possível.

Preocupado com a vida de todos,o Padre Tomé, tremendo de medo, rezava baixinho, fazendo votos para que Deus abrandasse o coração dos índios.

Apegando-se a Nossa Senhora do Sertão, cuja imagem conduzia cuidadosamente em sua bagagem, o Padre Miguel de Carvalho, dizia em pensamentos:

        Minha Nossa Senhora do Sertão, eu lhe peço que nos ajude a sair desse apuro e em troca eu lhe prometo: uma das primeiras coisas que vou fazer no Brejo do Mocha é a construção da sua Capela.

O chefe da escolta, ciente de que a vida de todos dependia dele e dos seus comandados, resolveu acreditar na sua sorte de jagunço. E num raio de segundo, manejando o seu arcabuz de coronha marcada por dezenas de cortes, onde cada marcação representava a eliminação de uma vítima, disparou a arma. Enquanto o estampido ecoava na mata, o índio que lhe ameaçara com a velha espingarda bate-bucha, estrebuchava pelo chão a se esvair em sangue.

Os seus colegas, que também não perdiam a oportunidade de mandar alguém para o inferno, usando da mesma agilidade, abriram fogo contra os Rodeleiros, que corajosamente, se protegiam com seus escudos e respondiam lançando flechas.

Os padres, o acólito e o pajem se afugentaram no matagal.

Os animais de carga se alvoroçaram e sem obedecer ao comando do tropeiro, correram desordenados por dentro da mata fechada, a se enganchar nos galhos das árvores, derrubando parte das malas de couro cru e das outras tralhas que conduziam nas cangalhas.

O tiroteio não dava trégua para que os índios pudessem atacar maciçamente com as flechas, mas como eles estavam protegidos com os escudos, iam se defendendo como podiam e num verdadeiro alarido a se comunicar na linguagem deles, ao invés de recuar, brandiam as suas lanças a enfrentar o perigo com bravura e determinação.

Mesmo diante do fogo cerrado, embora desfalcados com algumas baixas e atingidos pelos caroços de chumbo não interceptados pelos escudos de madeira, os índios partiram para cima dos arcabuzeiros, que já sem munição tentaram reagir com seus punhais, na maioria das vezes usados para sangrar suas vítimas. No entanto, ao perceberem que terminariam sendo massacrados, bateram em retirada e se refugiaram no meio da mata fechada, deixando os nativos livres para capturar três animais com carga e tudo que estavam enganchados numa touceira de unha-de-gato.

De dentro da moita de mofumbo, encolhidos a se borrarem de medo, os três religiosos oravam em silêncio, com os olhos fixos na imagem de Cristo encravada num pequeno crucifixo de prata que brilhava na palma da mão de um deles.

O Padre Miguel de Carvalho, ao perceber que o perigo já havia passado, ajoelhou-se no chão e postando as mãos, agradeceu:

        Muito obrigado minha Nossa Senhora do Sertão, por ter nos protegido, pois tenho certeza: foi a Senhora que salvou a nossa vida, concedendo-nos esta brilhante vitória.

O Padre Tomé, também ajoelhado ao lado do seu superior e do Padre Inocêncio, elevava louvores a Deus e à padroeira da nova Freguesia, a ser instalada:

        Em homenagem a esta indispensável vitória sobre os nossos agressores, proponho que de agora em diante a Imaculada Nossa Senhora do Sertão passe a se chamar de Nossa Senhora da Vitória!

A proposta foi plenamente aceita e daquele dia em diante a padroeira do Sertão de Dentro passou a ser conhecida pela nova denominação....”.

A Construção da Igreja e a Instalação da Freguesia de Nossa Senhora da Vitória

Ainda em novembro de 1696, depois de longa e cansativa viagem, no lombo de uma mula, Igreja Nossa Senhora da Vitóriapelas trilhas do sertão inóspito, que serviam de caminhos para as boiadas, que brotavam dos pastos da nova fronteira agropecuária conquistada pela poderosa Casa da Torre e seus associados, Mafrense e seus amigos e por muitos outros aventureiros egressos de Pernambuco, da Bahia e de São Paulo, o visitador-eclesiástico, Padre Miguel de Carvalho, em companhia do seu irmão Padre Inocêncio, do Padre Tomé e de uma pequena comitiva, finalmente chegou à Várzea da Tranqueira.

Na pequena comunidade, constituída por algumas fazendas beirando o riacho que emprestara o seu nome àquela localidade, a comitiva dos religiosos se dirigiu à fazenda Tranqueira.

A comitiva, chefiada pelo Padre-Visitador veio com recomendações de Dom Francisco de Lima, Bispo Diocesano de Pernambuco, que logo após a missa reuniu os principais membros da comitiva para fazer as recomendações e dar as últimas instruções sobre a viagem, que tinha por objetivo realizar uma descrição do território do Sertão de Dentro e consolidar o domínio eclesiástico nas novas terras, com a fundação de uma nova Freguesia, a ser desmembrada da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Cabrobó, sob a invocação religiosa de Nossa Senhora do Sertão. Porém, em homenagem à vitória contra os Rodeleiros, passou a ser denominada de Nossa Senhora da Vitória.

O Padre-Visitador fez contatos com os moradores dos vales dos rios Canindé, Piauí, Itaim e demais ribeiras, do Arraial dos Paulistas e da Terra dos Alongazes, com vistas a instalação da nova Freguesia e a construção de uma Igreja para abrigar a imagem da Padroeira.

Após vários contatos, em 11 de fevereiro de 1697 houve uma reunião na casa do fazendeiro Antônio Soares Touguia, com a participação de representantes de todas as comunidades previamente convidadas.

Depois de se discutir sobre as várias opções, a Assembléia, presidida pelo Padre Miguel, tendo como secretário o Sr. Antônio dos Santos Costa, deliberou para que se construisse a Igreja no Brejo do Mocha, por ser a parte mais conveniente aos moradores de toda a Povoação, ficando no meio dela, com iguais distâncias e caminhos para todos os riachos e partes povoadas.

Depois de tomada a decisão, alguns fazendeiros se prontificaram a ajudar na construção do templo.

Bernardo de Carvalho e Aguiar, que fazia parte daquela importante reunião, após escrever um bilhete, chamando o padre-visitador a um canto, falou:

“- Reverendo Padre Miguel de Carvalho, conforme eu havia lhe prometido, por ocasião em que o senhor esteve em Bitorocara a fim de me convidar para esta importante reunião, estou às suas ordens para colaborar na construção da nossa Igreja, com gente e gado. Porém como estou de partida para Pernambuco a chamado do Governador Caetano Melo e Castro, que vai me conceder a patente de Capitão-Mor de Infantaria da Ordenança do Distrito de Cachoeira até a povoação dos Rodelas, como prêmio pelos feitos militares contra os Precatis, peço que o senhor mande um portador levar este bilhete ao meu vaqueiro Mandu Ladino, para que ele traga cinco escravos e vinte cabeças de gado.”

Depois de escolherem o local, no alto de uma colina, o Padre Miguel continuou a sua peregrinação em busca de subsídios para concluir o seu relatório que culminaria com a formidável “Descrição do Sertão do Piauí”. Enquanto isso, o Padre Tomé e o Padre Inocêncio de Carvalho, ajudados pelos homens bons da região lograram a construir no espaço de 20 dias uma Capela com 24 passos de comprimento por 12 de largura, com frente para o poente.

A Igreja feita de taipa, com piso de barro batido, cobertura de palha de carnaúba e altar de tábuas, com 9 palmos de comprimento por 4 de largura, foi sagrado no dia 02 de março de 1697, pelo Padre Tomé de Carvalho e Silva – seu primeiro Vigário. Antes da missa co-celebrada pelo padre-visitador e por seu irmão, Padre Inocêncio – Vigário da Freguesia de São Francisco da Barra, a ser instalada. O Padre Tomé leu publicamente a Provisão que trazia do ilustríssimo e reverendíssimo Senhor Bispo de Pernambuco, Dom Francisco de Lima, inaugurando assim o primeiro Templo regular do Piauí.

Com a instalação da Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, a pedido do Vigário, – o bondoso Padre Tomé de Carvalho e Silva – os fazendeiros da redondeza passaram a construir as suas casas em volta da Igreja. No entanto, as mantinham fechadas, ocupando-as apenas por ocasião das festas religiosas.

Mas, com o passar do tempo, a comunidade foi crescendo. Algumas pessoas, movidas pela fé na padroeira, passaram a morar definitivamente no local, formando assim o primeiro núcleo populacional organizado da Capitania. Todavia, o centro das decisões continuava sendo a cidade de São Luís do Maranhão, que apesar da enorme distância e da dificuldade de acesso, mantinha jurisdição política e administrativa sobre o território piauiense.

Sentindo a sensação de abandono e a impressão de que se encontravam entregues à própria sorte, os fazendeiros dos vales dos rios Canindé, Itaim, Piauí e da ribeira da Tranqueira, sentindo a cada dia a pressão do povoamento com a chegada de novos moradores, decidiram pôr uma ordem na situação. Não dava mais para continuar com aquela conjuntura. Eles viviam dispersos e totalmente isolados. O gado era criado solto, não havia cercas. Os limites entre as posses eram definidos por acidentes geográficos. Só se encontravam durante os festejos religiosos realizados na sede da Freguesia ou por ocasião das desobrigas, quando, de tempo em tempo, o vigário passava pela região.

Por essa razão foi pensada na fundação de uma vila, os principais fazendeiros se juntaram na casa grande da fazenda Tranqueira, de Antônio Soares Touguia. Todos foram convidados para participar daquele ato. Acorreram as famílias Barbosa e Dantas, do vale do riacho do Frade; os Araújo Costa, das fazendas Sussuapara e Boa Esperança; os Soares da Silva, da fazenda Curaçá, localizada nos sopés da Chapada Grande; os Moreira, da Chapada das Contendas; os Gonçalves Vilarinho, da barra do Canindé; os Taveira, da fazenda Tatu; os Gameira, da fazenda Bonito; os Pinheiro, do vale do riacho Pequeno; os Pereira Ferraz, das terras roxas da margem direita do Canindé além da Passagem da Inhuma; os Baptista, da fazenda Varjota; os Lopes dos Reis, das fazendas Caldeirões e Mamona; os Rego Monteiro, do Pé do Morro; os Carvalho, fixados nos caminhos da estrada Real para o Maranhão; os Siqueira, do Entre Rios da barra do riacho Salina com o rio Canindé; os Madeira, da fazenda Turiaçu; os Santana Ferreira, da fazenda Palmeira; os Sousa Martins, do vale do rio Itaim; os Rodrigues Macedo, da fazenda Alegrete; os Sousa Brito, das fazendas Arrodeador e Bocaina; a família Luz, da ribeira do Guaribas; os Rocha Pita, da fazenda Maria Preta; os Barreira, da ribeira do Fidalgo; os Aquino Osório, do vale do Guaribas; os Antão de Carvalho, do alto do vale do rio Marçal; os Borges Leal, da fazenda Pico; os Neivas, da Ingazeira; os Lopes, do Forte; os Rodrigues Campos, dos Golfos; os Silva Moura, da fazenda Graciosa; os Nunes, do Caro Custou; os Bernardo, da histórica fazenda Cachimbos; os moradores da fazenda Aldeia; os Morais Rego, da Passagem de Dona Antônia; os Caminha, da Furta-Lhe-a-Volta; os Fonseca, do Brejo da Fortaleza; os Ferreira, das fazendas Curral de Pedras e Inhumas; os Costa Veloso, Marreiros e Vaz Portela, do vale do Catinguinha. Todas essas pessoas foram convocadas e, atendendo ao convite, compareceram ao grande encontro na casa de Soares Touguia.

O lugar ficou repleto. A casa grande ficou pequena para tanta gente. Foi um dia de festa com muito churrasco de boi.

Era final de inverno, tempo de muita fartura, de milho novo, feijão verde, coalhada e requeijão à vontade.

Na condição de convidado especial, o padre Tomé celebrou uma missão ao ar livre.

Horrorizados com a ação dos índios rebelados, que constantemente invadiam as fazendas, os homens prometiam rechaçá-los e discutiam o preço do boi nas feiras da Bahia, de Pernambuco e de Minas Gerais, ao tempo que as mulheres, em cochichos, tramavam os namoros de suas filhas com os rapazes disponíveis.

No final da reunião, após todos concordarem com o pleito, foi lavrada uma ata.

O documento que foi enviado ao Rei de Portugal, nem todos assinaram, alguns por timidez, outros, simplesmente, por não saber escrever.

A igreja de Nossa Senhora da Vitória definiu o nascimento da nova povoação. Na Carta Régia de 30 de junho de 1712 mandava El-Rei ao Ouvidor Geral do Maranhão, Sr. Eusébio Capely, dizia: "crie uma vila com Senado da Câmara e mais governanças”.

A instalação do Senado da Câmara tardou um pouco. Só veio em 26 de dezembro de 1717, com muitas festas e muita gente mandada do Maranhão. Foi o mesmo Eusébio Capely, Ouvidoria Geral, quem estabeleceu, em nome do Capitão-General, a tal câmara e nomeou-lhe o primeiro escrivão. Logo no ano seguinte era a Mocha, ainda vila, elevada à condição dignificante de capital.

O soberano reinante queria separar a capitania do Maranhão, estabelecendo a Capitania do Piauí. Porém essa separação só seria realizada em 1758, pela Carta Régia de 29 de julho. Três anos depois, outra Carta Régia, a de 19 de julho, trazia o predicamento e as honras de cidade.

João Pereira CaldasEm 13 de novembro daquele mesmo ano, impôs à vila, nosso primeiro governador, o Coronel de Cavalaria João Pereira Caldas, o nome de Oeiras. Homenageava, assim, a um dos maiores defensores da política de expansão norte, o Conde de Oeiras, o então todo poderoso Ministro do Reino, Sebastião José de Carvalho Melo, depois, mais poderoso ainda, Marquês de Pombal. Em honra do Rei, deu o Governador o nome a capitania de São José do Piauí.

Com a cidade, vieram as honrarias inerentes à nova situação. Aos membros do Senado, concederam-se todos os privilégios e prerrogativas de que gozavam os vereadores da Câmara de São Luis.

A posse de Pereira Caldas no Governo da Capitania foi, sem dúvidas, a primeira grande festa de Oeiras. Deu-se a 20 de setembro de 1759. O Secretário Joaquim Antunes deixou-nos curiosa “memória da formalidade que se observou na entrada e posse do primeiro Governador desta Capitania o Ilmo. Sr. João Pereira Caldas”. Ei-la:

“Havendo o dito senhor pernoitado no dia 16 de setembro de 1759 no sítio chamado Olho-d’Água, distante uma légua desta vila; e havendo na manhã do seguinte dia ali concorrido a encontrá-lo diferentes pessoas das distintas da terra, o aclamaram todos conduzindo até a passagem do riacho vulgarmente denominado da Mocha, onde, apeando-se o mesmo senhor, para cumprimentar a câmara, que naquele lugar o esperava e ouvir a oração, que recitou um dos vereadores, depois foi ao mesmo tempo cortejado com as continências e descargas das tropas pagas, e de ordenanças , que ali se achavam postadas. Depois disto, com o acompanhamento da câmara e gente principal se encaminhou o dito governador a fazer oração na igreja paroquial, e dela enfim se recolheu com todo o referido cortejo à casa que para sua residência se achava destinada; e havendo de noite e nas duas seguintes o costumado obséquio de luminárias que em semelhantes ocasiões se pratica; e repetindo-se também todo o dia 20 do mesmo mês e ano com o motivo da posse, que do governo desta capitania se conferiu ao sobredito senhor governador...”.

Aprisionamento de índiosLogo após a instalação da Capitania do Piauí, uma das primeiras providências do Governador recém-empossado, foi a organização das Forças Regulares da Capitania (Companhia de Dragões), para combater as populações nativas.

Tendo como comandante o truculento e sanguinário Tenente-Coronel João do Rego Castelo Branco, a tropa oficial se encarregou de perseguir e massacrar várias tribos, como a dos Timbiras, Guegueses, Pimenteiras, Jaicós, Tabajaras e Acroás, dentre outras, dizimando populações inteiras.

Assim como Campo Maior, a cidade foi um dos palcos onde se desenrolaram os embates pela independência do Brasil, na região norte. Foi durante muito tempo a cidade mais importante do Piauí, até que sua situação climática desfavorável (a aridez dos solos e o acesso difícil às capitais dos outros estados) levaram ao Conselheiro Saraiva a escolher e transferir a sede da Província para a “Chapada do Corisco”, onde hoje se encontra Teresina, em 1852.

Formação Administrativa

Foi elevado à categoria de vila com a denominação de Mocha, por carta régia, de 30 de junho de 1712.

Sede na atual vila de Mocha. Instalado em 26 de dezembro de 1717.

Elevado à condição de cidade com a denominação de Mocha, por carta régia de 19 de junho de 1761.

Pelo ato de 13 de novembro de 1761, o município de Mocha passou a denominar-se Oeiras. Capital da antiga provincia até ao ano de 1852.

Em divisão administrativa referente ao ano de 1911, o município denominado Oeiras é constituído do distrito sede. Assim permanecendo em divisões territoriais datadas de 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937.

No quadro fixado para vigorar no período de 1944-1948, o município é constituído do distrito sede.

Em nova divisão territorial datada de 1° de julho de 1960, o município é constituído do distrito sede. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2005.

Alteração toponímica municipal Mocha para Oeiras alterado, pelo ato de 31 de novembro de 1761. Com Nome gentílico de: oeirense

Dados Geográficos

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sua população em 2010 era de 35.646 habitantes. Sua extensão territorial é de 2.720 km².

Aspectos Físicos 

Limites

O município está localizado no Território de Desenvolvimento 7 – Vale do Canindé, tendo como limites os municípios de Barra D´Alcântara, Tanque do Piauí, Novo Oriente do Piauí e Santa Rosa do Piauí ao norte, ao sul São Francisco do Piauí, Colônia do Piauí e Wall Ferraz, a oeste, Santa Rosa do Piauí, Nazaré do Piauí, São Francisco do Piauí e Cajazeiras do Piauí e, a leste, Inhuma, Ipiranga do Piauí, São João da Varjota e Santa Cruz do Piauí.

Clima

As condições climáticas do município de Oeiras (com altitude da sede a 166 m acima do nível do mar), apresentam temperaturas mínimas de 18 °C e máximas de 40 °C, com clima semi-úmido e quente. Ocasionalmente, chuvas intensas, com máximas em 24 horas. A precipitação pluviométrica média anual(registrada média anual de 922 mm, na sede do município) é definida no Regime Equatorial Continental, com isoietas anuais em entre 800 a 1.400 mm e trimestres janeiro-fevereiro-março e dezembro-janeiro-fevereiro como os mais chuvosos. Os meses de janeiro, fevereiro e março constituem o trimestre mais úmido.

Relevo

As formas de relevo, do município de Oeiras, compreendem, principalmente, superfícies tabulares reelaboradas (chapadas baixas), relevo plano com partes suavemente onduladas e altitudes variando de 150 a 300 metros; superfícies tabulares cimeiras (chapadas altas), com relevo plano, altitudes entre 400 a 500 metros, com grandes mesas recortadas e superfícies onduladas com relevo movimentado, encostas e prolongamentos residuais de chapadas, desníveis e encostas mais acentuadas de vales, elevações (serras, morros e colinas), com altitudes de 150 a 500 metros.

Hidrografia

Os recursos hídricos superficiais gerados no estado do Piauí estão representados pela bacia hidrográfica do rio Parnaíba. Dentre as sub-bacias, destacam-se aquelas constituídas pelos rios: Balsas, situado no Maranhão; Potí e Portinho, cujas nascentes localizam-se no Ceará; e Canindé, Piauí, Uruçuí-Preto, Gurguéia e Longá, todos no Piauí. Cabe destacar que a sub-bacia do rio Canindé, apesar de ter 26,2% da área total da bacia do Parnaíba.

Geologia

Geologicamente, as unidades cujas litologias afloram na totalidade da área do município pertencem às coberturas sedimentares, relacionadas abaixo. Encimando o pacote litificado ocorrem os sedimentos da unidade denominada Depósitos Colúvio - Eluviais, que reúne areia, argila, cascalho e laterito. A Formação Sardinha, constituída de basalto, recobre pequenos trechos das unidades subseqüentes. A Formação Potí destaca-se com arenito, folhelho e siltito. Menciona-se a Formação Longá, englobando arenito, siltito, folhelho e calcário. Na porção basal do pacote repousam os sedimentos da Formação Cabeças, composta de arenito, conglomerado e siltito.

Solos

Os solos da região são provenientes da alteração de arenitos, laterito, siltitos, folhelhos, conglomerado e basalto. Compreendem solos litólicos, álicos e distróficos, de textura média, pouco desenvolvidos, rasos a muito rasos, fase pedregosa, com floresta caducifólia e/ou floresta subcaducifólia/ cerrado. Associados ocorrem solos podzólicos vermelho-amarelos, textura média a argilosa, fase pedregosa e não pedregosa, com misturas e transições vegetais, floresta sub-caducifólia/caatinga. secundariamente, ocorrem areias quartzosas, que compreendem solos arenosos essencialmente quartzosos, profundos, drenados, desprovidos de minerais primários, de baixa fertilidade, com transições vegetais, fase caatinga hiperxerófila e/ou cerrado sub-caducifólio/floresta sub-caducifólia.

Turismo

O município de Oeiras, pequena jóia barroca encravada no interior do Piauí, a 313 quilômetros de Teresina. Potencial turístico é o que não lhe falta. Da suntuosa matriz de Nossa Senhora da Vitória, à paisagem bucólica das margens do Rio Canindé, a primeira capital do Estado esbanja charme e tradição. Tudo com muita discrição. Os oeirenses são sóbrios, cientes do que têm, mas parcimoniosos na hora de mostrar seus tesouros a estranhos, o que só acrescenta magia ao lugar.

Igreja Nossa Senhora da VitóriaAlém da matriz, construída à moda dos jesuítas, numerosas construções compõem um conjunto arquitetônico de rara beleza e impressionante estado de conservação. O clima extremamente seco, provavelmente, ajudou a preservar prédios como a Casa da Pólvora, o prédio que hoje abriga o Museu de Arte Sacra e a igreja de Nossa Senhora do Rosário, imponente construção em pedra erguida pelos escravos.

Casa de Cultura de OeirasAssim como o fato de ter sido antiga capital ainda enche de orgulho os oeirenses, o fato de a vila ter surgido ao redor da capela de Nossa Senhora da Vitória sente-se ainda na religiosidade local. Considerada como a 'Capital da Fé' do Estado, Oeiras é destino de diversas peregrinações. As celebrações da Semana Santa são particularmente notórias, atraindo turistas e religiosos de diversas partes do Estado.

Café OeirasAlém do turismo, a cidade obtém boa parte de sua renda da criação de gado. É ligado a esta atividade que ocorre um dos principais festejos laicos de Oeiras, a Festa do Vaqueiro.

Outra tradição cultural importante de Oeiras são as apresentações do Grupos de BadolinsGrupo Bandolins de Oeiras, tradicional grupo de músicos formado por senhoras da cidade, com quase 30 anos de existência, que se apresentam em festividades religiosas e culturais, o grupo agita o público em todas as apresentações, tocando samba, maxixe, marchinhas e valsas, conservando um estilo musical do passado.

Em Oeiras ocorre uma densa manifestação religiosa. Destacam-se as festas da Padroeira Nossa Senhora da Vitória, em 15 de agosto, de Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro e a Semana Santa, talvez a mais movimentada do Piauí.

Procssão do Fogaréu em OeirasA Semana Santa de Oeiras é a maior festa religiosa do Estado, atraindo milhares de fiéis. A Festa de Bom Jesus dos Passos começa na quinta-feira da Fugida, com a primeira procissão da Semana Santa. A sexta dos Passos é o dia da Procissão dos Passos, a mais rica em símbolos e presença humana. A procissão segue parando nos 5 Passos. Em cada passo se repete o ritual de cantos, queima de incenso e benção de Santo Lenho. Entre as cerimônias religiosas destaca-se ainda a Procissão do Fogaréu, composta somente por homens.

Entre as manifestações populares está o Carnaval , competições e shows artísticos, além da tradicional Festa Junina. Sem contar nas Expressões Culturais de seu Folclore e Cultura, destando-se os Congos do Rosário, tido como uma das mais belas expressões Afro-Brasileiras.

Pontos turísticos

Dentre os pontos turísticos mais visitados, pode-se destacar:

  • Morro do Lemeo Morro do Leme, onde se ergueu uma estátua em homenagem a Nossa Senhora da Vitória, à qual se chega através de uma enorme escadaria;

  • o Morro da Cruz (que teve a cruz, de pedras sobrepostas há mais 100 anos não se sabe por quem nem para quê, deu nome ao morro destruída por vándalos, e construída outra de concreto bem maior e em local diferente), que permite visão privilegiada do município;Morro da Cruz

  • o Pé de Deus; a Casa da Pólvora, o Museu mais antigo do Piauí;

  • a Catedral de Nossa Senhora da Vitória;

  • a Igreja de Nossa Senhora do Rosário;

  • o Café Oeiras (reaberto);

  • o Cine-Teatro (abandonado);

  • dentre os inúmeros Casarios coloniais, ruas estreitas de paralelepípedos e Praças com fontes luminosas.

Fontes:

Neto, Adrião José - Raízes do Piauí - Românce Histórico - 2004, http://www.oeiras.pi.gov.br/historia-do-municipio.php;

http://www.etur.com.br/conteudocompleto.asp?idconteudo=2964;

CARVALHO, Afonso Ligório Pires de Carvalho - Terra do Gado - A conquista do Piauí na pata do boi, Editora Thesaurus, Brasília 2007;