CABECEIRAS DO PIAUÍ NO FOLCLORE BRASILEIRO

“Nascemos e vivemos mergulhados na cultura da nossa família, dos amigos, das relações mais contínuas e íntimas, do nosso mundo afetuoso”[1]. Esse é o princípio básico para a disseminação da cultura popular, enquanto instrumento de valorização do patrimônio imaterial de um povo ou nação.

“Todos os países do mundo, raças, grupos humanos, famílias, classes profissionais, possuem um patrimônio de tradições que transmite oralmente e é definido e conservado pelo costume. Esse conhecimento é milenar e contemporâneo. Cresce com os conhecimentos diários desde que se integrem nos hábitos grupais, domésticos ou nacionais”[2] . Estamos falando do Folclore.

O Folclore é o fruto do estudo das contribuições culturais e tradicionais de um povo, da maneira mais autêntica e primitiva. “FOLK, povo, nação, família, parentalha; LORE, instrução, conhecimento, sabedoria, na acepção da consciência individual do saber”[3].

O termo FOLK-LORE foi criado pelo arqueólogo inglês Willian John Thoms (1803 – 1885), “propondo a denominação num artigo com esse título, publicado na Revista The Athenaeum, de Londres, a 22 de agosto de 1846, com o pseudônimo de Ambrose Merton. Folk-lore seria ‘the lore of the people’, a sabedoria do povo[4]. O referido termo se popularizou, tornando-se universal e comum.

Segundo Cascudo, o folclore é uma cultura do povo; portanto, é viva, útil, diária, natural e representa o uso, o emprego imediato e o comum, embora antigos. No entanto, “estamos diante, na realidade, de uma tensão entre um globalismo que se tem por vitorioso e uma valorização dos valores étnicos e locais”[5].

Para ser folclore, “é preciso que o motivo, fato, ato, ação, seja antigo na memória do povo; anônimo na sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nos seus repertórios orais ou no hábito normal. Que sejam omissos os nomes próprios, localização geográfica e datas fixadoras do episódio no tempo”[6].

No entanto, observamos uma disputa desleal: enquanto a cultura popular é sentida e vivenciada em alguns pontos isolados – num movimento de retorno ao passado e às origens – adquirindo um status ora de continuidade, ora de elitismo, ora de abandono, não podemos afirmar que passamos por um processo de negação no Piauí. Já a cultura de massa é "acessada" e comercializada em larga escala, nos mais diferentes meios de comunicação e difusão. O Brasil, especialmente, “credencia-se como lugar onde a cultura de consumo encontra forte aceitação e compatibilidade inquestionável com o modelo local de organização sociocultural”[7].

Os valores culturais são construídos ao longo de um processo histórico contínuo, podendo ser modificado e acrescido. “Na atualidade, porém, o indivíduo não possui mais identidade única, constituída de valores assumidos por sua região ou pela nação a que pertence”[8]. Tal processo é permeado de variáveis inconstantes que interferem positiva e negativamente na aquisição de um modelo identitário nacional e, conseqüentemente local.

Atualmente, vivemos um momento meio conturbado, pois se fala de identidade por todas as arestas do planeta e, no Brasil, no Nordeste e no Piauí não é diferente. Não possuímos uma identidade única e o homem está sempre moldando e reafirmando a sua identidade e seus valores. Estamos sempre adquirindo novas “couraças” de identidade.

Passamos por um momento de urgência nas identidades e mutação dos princípios identitários. “Nessa sociedade dominada pela ‘cultura da sociedade de consumo’, os padrões tradicionais, como a alta-cultura ou as chamadas raízes culturais, passaram por um processo de absorção, submissão, intermediação, executado pela indústria cultural”[9].

Com a globalização, introduzimos em nossa sociedade alguns modelos e valores externos e “transferimos para a área da cultura um conceito que é basicamente econômico”10]. A globalização, pois, torna as comunicações mais instantâneas, ao tempo que tenta nos reduzir e igualar, seja nos nossos gestos, seja nos nossos desejos e necessidades.

Infelizmente e aos poucos, em alguns lugares, como no Piauí, a população mais velha, detentora do conhecimento folclórico-popular genuíno, está perdendo espaço para uma cultura imediatista e efêmera. E pelo fato da população mais jovem defender outros objetivos, o conhecimento da cultura popular se esvai. Consequentemente a esse fato, nossas crianças e jovens se movimentam cada vez menos, brincam menos, cultivam menos amizades duradouras, praticam menos atividades corporais e perdem o contato com a cultura popular; ou seja, por um lado se desapropriam de sua identidade cultural, e, por outro, perdem o contato com a sua corporeidade. Dispomos, mais do que nunca, de muita informação e possibilidades de escolhas, o que nos torna menos seletivos e criteriosos. Damos, assim, brecha para a implementação de uma cultura fraca e efêmera.

O ser humano dos novos tempos é aquele que, além de se caracterizar como pensante e participativo, deve ser incluído nas vivências sócio-culturais, enfrentando as transformações de uma sociedade capitalista, através de uma educação libertadora e também atuar na manutenção de suas raízes folclóricas.

“Em suma, o folclore, encarado como realidade cultural, psico-cultural ou sócio-cultural, constitui objeto de investigação científica. Nesses termos, ele pode ser descrito e explicado por disciplinas como a Psicologia, a Psicologia social, a Etnologia e a Sociologia, através de seus recursos comuns de pesquisa e de interpretação. Entendido como um campo especial de indagações e de conhecimento, ele constitui uma disciplina humanística, semelhante à Literatura Comparada, podendo lançar mão, como esta, de técnicas de trabalho científico, sem ser uma ciência propriamente dita[11].

Raízes da Cultura Popular e do Folclore Piauiense

“O imaginário popular piauiense se encontra povoado de narrativas fantásticas que tratam de diferentes representações da cultura popular religiosa”[12]. E Cabeceiras, como os demais municípios da Região Nordeste, tem orientação religiosa católica muito forte, apesar da disseminação das doutrinas evangélicas e protestantes.

“A cultura popular compreende o artesanato, as indústrias caseiras, tudo quanto acompanhar a tradição manufatureira, mesmo com modificações que não mutilem a santa continuidade”13].

Podemos afirmar que as raízes da Cultura Popular do nosso estado têm inspiração na colonização, na história do ciclo do gado, nas lendas e mitos religiosos, nas heranças trovadorescas ibéricas e todo um manancial de tradições presentes no Boi, Reisado, Cordel, Lendas e Mitos, Danças, Linguajar Matuto, Cantorias, Culinária, Crendices e Superstições, etc. A imagem do Piauí é associada a esse patrimônio e sua riqueza expressiva retifica sua história, mantendo uma relação intrínseca com toda manifestação de cunho cultural.

O Bumba-meu-boi, Dança do Boi ou simplesmente Boi integra as tradições populares de muitos estados do Brasil e é tido como o folguedo mais tradicional e característico do nosso estado. Sua origem se deu junto ao processo de colonização do Piauí, através da doação de sesmarias e fazendas de gado. Caracteriza-se por ser uma representação dramática; seu enredo denota a relação sócio-econômica colonial; notamos muita riqueza na confecção do boi, assim como nos figurinos dos brincantes e personagens; é um folguedo de ritmo alegre e passos fáceis.

Sabemos que o processo de colonização e desenvolvimento do Piauí se deram de maneira lenta e tardia. Sabemos também que todas as atividades comerciais e culturais foram importadas e são modelos de outros estados da federação como da Bahia, Pernambuco, Maranhão, Ceará, etc.

O que não justifica, portanto, é o fato de a história do Piauí ser desdenhada e negada, como vem sendo, desde o seu estágio de povoamento. É inadmissível que os nossos célebres estudiosos e folcloristas nacionais anulem o Piauí e todo o seu repertório cultural. Ao fazermos uma pesquisa nos estudos de Câmara Cascudo a Mário de Andrade, constatamos que o Piauí não estava lá. Ao mesmo tempo em que se localiza entre dois grandes expoentes da cultura nordestina, não é sequer citado com significância.

O fato que explica toda a riqueza cultural do Piauí se deve a “grande variedade manifestações e tradições trazidas pela multiplicidade de imigrantes que aqui chegaram [...] Soma-se a esse aspecto a mestiçagem das raças e dos costumes que formaram as bases da nossa história”[14].

Em OLIVEIRA: “A composição étnica do Piauí reflete a participação de estoques raciais primitivos: brancos, negros e índios [...] constituem a base do universo cultural piauiense [...] bem como as condições mesológicas, a estrutura socioeconômica são, também, condicionamentos importantíssimos para dimensionar culturalmente o Piauí”[15].

Manifestações Religiosas e Culturais

Cabeceiras, como os demais municípios brasileiros, tem, historicamente, orientação religiosa católica muito forte, apesar do crescimento da influência das doutrinas evangélicas protestantes. Há o predomínio dos valores cristãos trazidos com a religião católica apostólica romana, em decorrência da colonização portuguesa.

Festejos de São José

Procissão nos Festejos de São JoséNa sede da cidade, acontecem dois festejos por ano (do mesmo padroeiro) que atraem muitas pessoas da sede, zona rural e outras cidades: o primeiro consiste em novenas que acontecem na capelinha da São José e se encerram no dia 19 de março, feriado municipal em comemoração ao dia do padroeiro; e o segundo festejo na Igreja São José ocorre durante a última semana de julho, Dias em homenagem aos vaqueirosdias em que há grande movimentação nas barracas que oferecem muitos atrativos como comidas típicas e boa música.

O ponto alto dos festejos é a missa do vaqueiro. Logo ao amanhecer, começam a chegar à casa do senhor Celso Lages, vaqueiro tradicional desde os tempos do senhor Dodô Veloso, os vaqueiros da região para um café da manhã oferecido pelos vizinhos e preparado com muito carinho por sua esposa, dona Erandir Mamede. Depois de bem alimentados, todos seguem em procissão com o santo, montados a cavalo e exibindo, orgulhosos, seus ternos de couro (indumentária necessária para sua lida diária) rumo à igreja.

Folguedos Folclóricos

Os folguedos são festas de caráter popular, cuja principal característica é a presença de música, dança e representação teatral. Grande parte dos folguedos possui origem religiosa e raízes culturais dos povos que formaram nossa cultura (africanos, portugueses e indígenas). Contudo, muitos folguedos foram, com o passar dos anos, incorporando mudanças culturais e adicionando, às festas, novas coreografias e vestimentas (máscaras, colares, turbantes, fitas e roupas coloridas). Os folguedos fazem parte da cultura popular e do folclore brasileiro. Embora ocorram em quase todo território brasileiro, é no Nordeste que se fazem mais presentes.

Reisado (ou Terno de Reis)

Imagem de Santos ReisEstá entre os folguedos mais festejados no Piauí. Acontece durante o ciclo de Natal e se estende até o dia 06 de janeiro. “Trata-se de uma festa cujos ingredientes principais são alegria, descontração e muito barulho. O Reisado tem origem lusitana, introduzido no Brasil ainda pelos portugueses durante o período do Brasil Colonial” [16].

Recebe diferentes interpretações e encenações. Segundo Santos[17] normalmente é composto de quatro ou seis caretas, os instrumentos musicais usados são uma orquestra de violas, violões, pandeiros, maracás, sanfonas, etc, com coreografia simples.

O Reisado é festejado em diversos municípios do estado, especialmente em Boa Hora, Teresina, Barras do Marataoan, Picos, São Félix do Piauí, Santa Filomena, São Raimundo Nonato, Conceição do Piauí, Paulistana, Fronteiras e Parnaíba, havendo modificações e peculiaridades em cada local.

Reisado Cabeceirense

Reisado da localidade de Baixa de TrázEm janeiro, acontece a festa de Santo Reis no período entre os dias 1º e dia 06 de janeiro. Nesse período, a família que festeja sai de casa em casa fazendo uma apresentação que mais parece uma dramatização teatral. O grupo é composto por três caretas, pessoas enfeitadas com palhas e máscara; o tirador faz a apresentação entoando cantos e o boi que dança no ritmo das cantorias. A festa tem seu ponto alto no dia seis, dia alusivo a Santo Reis. A equipe que faz as apresentações passa todo o dia na casa da família que homenageia o Santo, onde, no final da tarde, acontece o evento da matança do boi, e, à noite, acontece uma festa dançante.

Sr. Luiz Cota e D.ª ArchângelaOs folguedos são o ponto forte da cultura Cabeceirense, principalmente nas localidades de Renovada, Baixa de Trás e Saquarema. Segundo relatos do Sr. Luiz Cota, há incidência na comemoração do Reisado e São Gonçalo, apesar de pequena, mas ainda se comemora; já o São Benedito está quase extinto; contudo, ainda não morreu.

O Sr. Luiz Cota, residente na localidade Pedras, foi um dos principais puxadores de Reisado de Cabeceiras e um dos caretas mais famosos da região. Iniciou em 1952 e durante muito tempo realizou cortejo pelas localidades vizinhas. Dona Alzenira e filhosTambém festejou e dançou o São Gonçalo e São Benedito.

Merecem destaque Dona Alzenira e seus filhos, residentes na localidade de Lagoa Seca dos Leandro; ela foi uma grande cantadeira de Reisado, São Gonçalo e São Benedito e atualmente repassa os seus conhecimentos para outras mulheres; um de seus filhos – Antônio – é careta Maria Ramos - Cantadoura de reisado, São Gonçalo e São Beneditoe outro – Lourenço – é puxador de Reisado dessa região a oeste do rio Marataoan.

Outra grande cantadeira e puxadora de Reisado foi a Sra. Joana Henrique (Joana Preta, fundadora da Nova Vila); realizava anualmente o folguedo e transmitiu seu legado cultural para sua filha, a Sra. Maria Ramos, que por sua vez repassou para o seu filho, o jovem André Luiz.

No início da , as tiradeiras do Reisado Cabeceirense entoam o seguinte canto:

Canto inicial da visita de Santo Reis
Ó di casa, ó di fora
Qui hora tão excelente
É o glorioso santo Reis
Qui é vem do Oriente
Sôr dono da casa
Alevanta e cende a luz
Vem a ver santo Reis
O retrato de Jesus
Deus te sarve oratóro
Cum todo seus ornamento
Deus te sarve as estampinha
E as image qu’estão dentro
Ó de casa, ó de casa
Alegra esse moradô
Que o glorioso santo Reis
Na sua porta chegô
Paremo na sua porta
Com oro na balança
Aqui tamo a sua espera
Da sua determinança
Deus te sarve as image
As pequena e as maió
Numa rica divindade
Sincerra em uma só
Aqui está santo Reis
Meia-noite foras dóra
Procurou vossa morada
Pedino sua ismola
Deus te sarve casa nobre
Nos seus posto tão honrado
Ande mora gente nobre
Que de Deus é visitado
Sôr dono da casa
Alegra seu coração
Arreceba santo Reis
Com todo seus folião
Santo Reis e Nossa Senhora
Foi passeá em Belém
São José pediu ismola
Santo Reis pede também
Deus o sarve a luz do dia
Deus o sarve a claridade
Deus o sarve as três pessoa
Da Santíssima Trindade
Santo Reis desceu do céu
Cortano vento nas asa
Vei pedi um agasaio
Para o dono desta casa
Santo Reis e vem girano
Cançadim do trabaio
Procurô vossa morada
Pra pedi um agasaio
A ismola que vóis dá
Nois viemo arrecebê
O glorioso santo Reis
É quem vai agradecê
Deus o sarve as três pessoa
Com a sua santidade
É três pessoa divina
Aonde nasce a divindade
Santo Reis veio voano
Nos are fez um remanso
Procurô sua morada
Pra fazê o seu descanso
Santo Reis pede ismola
Não é ouro nem dinhêro
Ele pede um agitoru
Um alimento pros festero
O sinal da Santa Cruz
É principo de oração
É o principo desse canto
Desta rica invocação
Sôr dono da casa
Muito alegre deve está
Do glorioso santo Reis
Hoje vei lhe avisitá
Sôr dono da casa
Vem abri as portaria
Recebê santo Reis
Com sua nobre folia
Deus te sarve oratóro
É coluna que Deus fez
Hoje tá visitado
Do glorioso santo Reis
 
 http://www.velhosamigos.com.br/DatasEspeciais/diadereis1.html

E ao final é entoado o canto de despedida, concluindo o do início:

Canto no final da visita de Santo Reis

Concluímo este canto
Fazeno o siná da cruz
Pade, Fio, Esprito Santo

"Santos Reis vai despedindo
Deixando muita saudade.
Vai deixando muita bênção
Pro povo desta cidade."

http://www.velhosamigos.com.br/DatasEspeciais/diadereis1.html

São Gonçalo 

Imagem de São GonçaloDe origem portuguesa, era antigamente realizada no interior das igrejas de São Gonçalo, festejado em 10 de janeiro, data de sua morte em 1259. Realizada em Portugal desde o Século XIII, chegou ao Piauí em princípios do Século XVIII, com a chegada dos fiéis ao santo na cidade de Amarante.

No Brasil, atualmente, não há dia determinado; aliás, não fazem mais festas, romarias para o santo (outrora 10 de janeiro), somente oferecem-lhe uma dança e reza, cerimônia esta que ocorre sempre que alguém lhe tenha feito promessa e alcançado uma graça.

As imagens de São Gonçalo, em sua maioria, apresentam fisionomia de alegria que, segundo o povo, era a marca registrada de São Gonçalo.

O promesseiro é quem organiza a festa, administrando todo o processo necessário à realização do ritual. É realizada dentro de casa ou em local coberto, onde se arma um altar com a imagem do São Gonçalo e outros santos de devoção do promesseiro. Em frente a este altar é que se desenvolve toda a dança.

Sr. Luiz CotaOs dançarinos se organizam em duas fileiras, uma de homens e outra de mulheres, voltados para o altar. Cada fileira é encabeçada pelo mestre e contramestre que dirigem todo rito e duas tiradeiras que entoam os cantos.

A dança é dividida em partes chamadas “volta”, cujo número varia entre 5, 7, 9 e 21. Entre cada “volta” há interrupção e todos aproveitam para se servir das iguarias oferecidas pelo promesseiro.

As “voltas” são desenvolvidas com as tiradeiras cantando, a duas vozes, toadas a São Gonçalo, enquanto dançarinos, sapateando na fileira em ritmo sincopado: dirigem-se em dupla até o altar, beijam o santo, fazem genuflexão e saem sem dar as costas para o altar, ocupando os últimos lugares de suas fileiras. Cada volta pode durar de 40 minutos a 2 ou 3 horas, dependendo do número de dançadores.

Na última “volta” forma-se uma roda. onde o promesseiro dança, carregando a imagem do santo, retirada do altar enquanto os demais dançarinos agitam lenços brancos.

Esta manifestação ocorre em quase todo o Brasil, com variações coreográficas bastantes diversificadas, tomando diferentes formas de execução.

As danças ou rodas de São Gonçalo podem ser encontradas ainda hoje nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão, Piauí, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo.

São Gonçalo Cabeceirense

É outro folguedo Cabeceirense com predominância nas localidades Saquarema, Baixa de Trás, Pedras e vizinhanças; ainda se festeja o São Gonçalo, mas com tendências ao desaparecimento.

O ritual do São Gonçalo Cabeceirense acontece ao som do seguinte canto:

Canto do São Gonçalo

"São Gonçalo está no artá,
com sua linda formusura,
quem beijá o São Gonçalo
tem a sarvação segura."

"Já louvei a São Gonçalo,
esse santo me valeu,
contra todos os perigo,
ela já me protegeu".

http://www.angelim.mus.br/index_arquivos/Page3309.htm

São Benedito 

Imagem de São BeneditoEste folguedo está tendendo a desaparecer; contudo, há pequena incidência na zona rural de Cabeceiras, principalmente na localidade de Saquarema e regiões próximas.

Não se sabe a origem precisa dessa tradição, embora o nome Moçambique leve muitos pesquisadores a atribuir-lhe possível origem africana. Sabe-se que não foi trazida pelos escravos. Esta Dança é uma dança guerreira, muito antiga. Foi utilizada na Catequese dos índios no Brasil como precioso fator de recreação popular. O ponto maior da presença do Moçambique é no Vale do Paraíba do Sul, em São Paulo. Entretanto, também é encontrado no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.

A confraria dos moçambiqueiros é mais folclórica do que a das congadas. A maior parte dos participantes é jovem. O regulamento é oral e são normas simples, criadas pelos grupos que dirigem as "Companhias de São Benedito" O canto é um louvor ao São Benedito.

Diz a lenda de que foi este santo quem inventou a dança para alegrar seus devotos.

Veja o exemplo de um trecho de uma música de São Benedito:

Canto de São Benedito

“Esta dança é de São Benedito

São Benedito foi quem dançou

ele dançou e subiu pro céu

hoje dançamos nós pecadores.”

No desenrolar da, festa existem várias danças. A parte dramática é mínima. As danças têm nomes religiosos: Escada de São Benedito, Estrela da Guia, etc. À frente do Grupo é comum irem duas crianças segurando, uma de cada lado, o estandarte ou bandeira que é onde está representada a imagem de São Benedito.

Para dançar, os brincantes usam bastões de madeira, que são batidos como espadas sempre acompanhadas de uma coreografia, sob o comando dos seguintes instrumentos musicais, que podem variar: tarol (caixinha de guerra), reco-reco, pandeiros, rabeca, tamborins, violas, enquanto cantam louvações religiosas.

Quadrilha

Quadrilha do idoso em Cabeceiras do PiauíNo mês de junho, acontece uma série de festivais de quadrilhas no município de Cabeceiras do Piauí. São eventos escolares, públicos e particulares que mobilizam toda a cidade, em um verdadeiro tributo aos três santos festejados – Santo Antônio, São João e São Pedro.

Merecem destaque o Festival Junino de quadrilhas promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura; o tradicional “Arraiá Viva o Véi”, promovido pela Secretaria Municipal de Assistência Social, ocasião em que as pessoas da terceira idade recebem trajes típicos, são maquiadas e produzidas carinhosamente pela equipe do CRAS, Centro de Referência da Assistência Social, Arraiá da Malhadinhapara dançar e se divertir deliciando comidas típicas e ouvindo o tradicional forró pé-de-serra.

Outro evento tradicional que integra o calendário cultural do município é o Arraiá da Maiadinha Boisperança – na localidade Malhadinha Boa Esperança, idealizado pelo comerciante João Francisco e promovido pela Família Lopes. É organizado pela “Coisa Braba Produções”, um trabalho dos primos Cleane Melo, Paulo Beltrão, Oliveira Júnior, familiares e amigos.

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Seleta. Rio de Janeiro: Ed José Olympio, INL, 1972 (Coleção Brasil Novo; 6).

FERNANDES, Florestan. O Folclore em questão. São Paulo: HUCITEC, 1978 (Coleção Estudos brasileiros; 8).

BORBA FILHO, Hermilo. Espetáculos populares do Nordeste. São Paulo,.......... SP, 1996.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro, .............RJ, 1972.

OLIVEIRA, Noé Mendes de. Folclore Brasileiro: Piauí. 3 ed. Teresina, PI: Fundação Monsenhor Chaves, 1999.

NUNES, Maria Cecília S. de A. Simplício Dias da Silva e o imaginário popular. Cadernos de Teresina, ano XI, nº 25, abril de 1997, Fundação Cultural Monsenhor Chaves. P.19/22.

SANTOS, Lirton Nogueira. Folguedos Folclóricos do Piauí. Cadernos de Teresina, ano X, nº 27, Fundação Cultural Monsenhor Chaves.



[1] CASCUDO, Luís da Câmara, 1972, p. 19.
[2] Idem, p.11.
[3] Idem, p. 12.
[4] Idem, p. 12.
[5] COSTA E SILVA, 1999, p. 23.
[6] CASCUDO, Luís da Câmara, 1972, p. 16.
[7] FONTENELE, 2002, p 49.
[8]REGO, 2008, p. 90
[9] FONTENELE, 2002, p. 48.
[10] COSTA E SILVA, 1999, 22.
[11] FERNANDES, Florestan, 1978, p. 24.
[12] NUNES, 1997, p. 19.
[13] CASCUDO, Luís da Câmara, 1972, p. 15.
[14] SANTOS, Lirton Nogueira, 1997, p.48.
[15] Oliveira, Noé Mendes de ,1999, p14.
[16] SANTOS, Lirton Nogueira , 1997, p. 50.
[17] Idem, 1997, p. 50.